sábado, 13 de junho de 2009

Paredes Blindadas - capitulos 9

Capitulo 9

no elevador

- cocororó cóoooooooooooooooo
- de novo, o galo
- bom diaaaaaaaaaa
- como você sabe que é dia?
- olha a claridade! Amanheceu
- que claridade?
- o elevador é panorâmico, rebanho de antas. Está de dia.
- nada como a sabedoria da idade, Dona Jaciara
- que sabedoria nada, eu só olhei através da parede
- mas e o galo?
- ah, é o Agenor... veja, o Agenor está aqui tambem gente
- que mané é o Agenor
- meu galinho de estimação. presente da Patroa
- po, nem pra ser uma galinha.
- bom, pelo menos nos acordou. Graças ao Agenor, sabemos que está de dia.

mais tarde

- bem, a essa altura ninguem mais vai para a Ilha. Olha aqui, bolacha e suco. só não tem copo.
- ah, eu arranjo copo, olha aqui esses envelopes, dá para colocar o suco
- é mais cuidado, tem um que tá com o cocô da Teodolina
- bom, fome ninguem passa. mas vão se preparando para a prisão de ventre. não quero cheirar mais nem uma bufa aqui dentro.

mais tarde ainda...

- po, que horas são?
- deixa ver 9h06... tá aqui no celular
- puxa, você tem celular e não faz nada? não liga para ninguem nos tirar daqui?
- se eu ligar, meu marido descobre que eu estou pulando a cerca, ora.
- mas a essa altura ele sabe que você pula a cerca, lindinha
- sabe o que me doi?
- o que? ninguem, absolutamente ninguem, veio nos procurar. E veja bem, são 9h da manhã. Estamos presos há umas 14 horas. Ninguem neeeeem tchum
- bom, meu marido é portugues... demora a entender as coisas
- buaaaaaaaaaa, buaaaaaaaaa
- chorando, Joel?
- de saudades da patroaaaaa...

na casa de Joel, mesma hora

- Reginaldoooooooooooooo, ô Reginaldoooooooooooooo
- fala Donidil...
- Joel ligou?
- ligou não. fiquei na venda ontem até tarde tomando uma e jogando pauzinho, ele nem ligou, nem apareceu por lá.
- onde anda esse ordinário?
- sei lá... sexta-feira, né?
- e o ordinário aproveita que trabalha lá na cidade e fica lá mesmo na casa das primas
- ele tem parente no centro?
- que parente o que, Reginaldo, falo das quengas lá da casa de tolerancia ora bola...
- ichi... bom, se a senhora quiser conferir posso ir lá com a senhora Donidil...
- pois vamos sim. ele folga no fim de semana. não tem porque não voltar pra casa

no elevador, um pouco mais tarde

- Aidil deve estar uma jararaca comigo
- imagine se ela soubesse o que você e o Nivaldo andaram fazendo
- foi brincadeira de bater figurinha, nada demais...
- ainda bem que você pensa assim, querido. Eu estou comprometido até os dentes com Abinovaldo...

na mesma hora, na rua, um transeunte para. dali a minutos outro transeunte para. cinco transeuntes parados depois alguem resolve perguntar o que esta acontecendo...

- é uma índia com colar?
- dançam as ilhas sobre o mar?
- sua cartilha tem um ar de que cor?
- o que está acontecendo?
- o mundo está ao contrário e ninguem reparou?
- que está acontecendo?
- atrás do filho vem um pai e um avô?
- o que você está fazendo?
- milhões de vasos sem nenhuma flor? (*)
- não, uma movimentação esquisita ali no elevador
- vixe. não tem ninguem no prédio.
- bem que falam que esse edificio é assombrado
- é... que a anta do Ceará assombra ai quando não tem ninguem...
- mesmo?

no elevador...

- falam que o prédio é assombrado sim. por isso que eu crio o Agenor...
- bem que noite eu ouvi umas coisas
- que coisas?

que coisas? vejam depois

(*) a conversa dos transeuntes, é uma brincadeira com a letra da musica Relicário. Minha intenção aqui é a de homenagear os Titãs e em especial, Nando Reis (nota da autora)

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